terça-feira, 10 de junho de 2008

Estágios da Vida

Relatório de Estágio de Claudio Vítor Mariano Vaz
Estágios da Vida.Blogspot.com
Licenciatura em Jornalismo
Fauldade de Letras da Universidade de Coimbra
Orientador: Doutor Fausto Crunchinho - Faculdade de Letras
Bancada: Dr. Manuel Correia - Jornal de Notícias
Doutora Isabel Vargues
Classificação: 17
Data da Defesa: 8 de Maio de 2008

Primeira parte

Um estágio, quatro órgãos de comunicação, sete meses
Este trabalho tem o objectivo de relatar o estágio curricular que realizei no jornal Macau Daily Times (MDT) como repórter fotográfico no período entre Novembro de 2007 e Fevereiro de 2008. Com este trabalho pretendo expor os principais ensinamentos adquiridos durante a prática do fotojornalismo, confrontando esta experiência com os conhecimentos teóricos absorvidos ao longo da licenciatura em Jornalismo.

Para não deixar todas as experiências de fora deste trabalho, não posso deixar de citar o a Secção de Jornalismo da AAC e o jornal Tribuna de Macau, e em especial noutros dois órgãos de comunicação social: o Jornal A Tribuna de Santos, no Brasil, em Agosto de 2007 e a Agência Lusa, em Timor Leste, durante o mês de Fevereiro de 2008.

Um estágio, quatro órgãos de comunicação, sete meses. Não consigo, nem posso, a partir de um ponto de vista pessoal, encarar a minha experiência e a aprendizagem adquirida como sendo fruto de apenas um único estágio.
Por isso peço a compreensão da comissão de estágios e do IEJ para um relato mais abrangente neste trabalho, contudo, sem esquecer de focar os intensos meses de estágio no Macau Daily Times que me proporcionaram não apenas mais conhecimentos na área do Fotojornalismo, mas também lições de jornalismo e de vida com os meus colegas de trabalho.

Porquê o Fotojornalismo?


“Se a vida fosse um livro, viver e não viajar
seria como se lêssemos apenas uma página deste livro.”
Blaise Pascal

Não foi uma escolha. O gosto pelo jornalismo surgiu na minha vida, ainda durante a adolescência, enquanto procurava algo que gostasse de fazer. Este gosto ganhou forma e conduziu-me ao Fotojornalismo. Gostava de viajar e, com uma caneta e uma máquina fotográfica compacta com um rolo de 24 fotos, comecei a coleccionar histórias e imagens de vidas e de sítios. Gostava daquela combinação de imagem e conteúdo, da simbiose da história com a as imagens das personagens, da representação dos factos fruto dos meus actos com uma máquina fotográfica.
Uma combinação que mais tarde vim a descobrir ser a base da definição restrita do Fotojornalismo, que nas palavras de Jorge Pedro Sousa [1] consiste numa “actividade que pode visar informar, contextualizar, oferecer conhecimento, formar, esclarecer ou marcar pontos de vista ("opinar") através da fotografia de acontecimentos e da cobertura de assuntos de interesse jornalístico. Este interesse pode variar de um para outro órgão de comunicação social e não tem necessariamente a ver com os critérios de noticiabilidade dominantes.” Aquele gosto cresceu. Anos mais tarde, já no primeiro ano da faculdade de Direito, planeei uma nova viagem.
Durante este ano dividia o meu tempo entre a doutrina do Código Civil e os poucos websites sobre a América do Sul existentes na altura. Mapas rodoviários marcavam as páginas dos meus apontamentos da faculdade. No final do ano lectivo, já com todas as cadeiras do primeiro ano da faculdade feitas, fui até à sede do jornal A Tribuna de Santos para oferecer as fotografias e as histórias da viagem que pretendia fazer pela América do Sul. No natal veio o “aval” familiar: uma máquina fotográfica reflex analógica da marca Zenith, fabricada na antiga URSS, completamente manual. Foi uma viagem de experiências, já que não possuía nenhum conhecimento profundo sobre técnica fotográfica, muito menos com máquinas manuais.
Depois de quase três meses regressei a Santos. Entreguei os meus textos e algumas fotografias ao jornal A Tribuna e prometi mais. Tornei-me colaborador da secção de viagens.
Nos corredores da faculdade de Direito os professores já não conversavam apenas sobre os exames: faziam comentários e críticas sobre as minhas fotografias e os meus textos no A Tribuna, davam-me os parabéns e sugeriam outros sítios para visitar. No terceiro ano da faculdade decidi estudar inglês na Inglaterra. Em Londres, passados os primeiros meses de descobertas e de luta, procurei a Revista Brasil.Net. A ideia era a mesma que tive para o A Tribuna. Aceitaram. Razões já não faltavam para eu deixar de vez o curso de Direito. Depois de regressar de uma longa viagem pelo sul da Europa, decidi que era mesmo o Fotojornalismo o que eu queria estudar. Escolhi Coimbra pela oferta da cadeira que mais me chamou a atenção em todo plano do curso de jornalismo, o que não podia ser outra senão a cadeira de Fotojornalismo. Na chegada a Coimbra tive uma decepção[2] : a cadeira não existia, nunca existiu e nem iria existir nos seguintes cinco anos em que estive a estudar em Coimbra.

O Fotojornalismo ia ter que esperar. Era tarde para voltar atrás. Entretanto descobri outros conhecimentos que me faziam falta: “História dos Media”, com a Dra. Isabel Vargues; “Geopolítica”, com o ilustre Dr. Gama Mendes, e as cadeiras de língua portuguesa, nas quais eu tinha imensa dificuldade. Não posso deixar de dizer que graças à compreensão e ao profissionalismo da Dra. Ana Teresa Peixinho deixei de lado a ideia de abandonar o curso.

[1] SOUSA, Jorge Pedro, (2004). Fotojornalismo
[2] As críticas e os comentários apontados neste relatório devem ser lidos num ponto de vista construtivo, pois pretendem apenas mostrar a minha opinião enquanto estudante finalista do curso de Jornalismo da Universidade de Coimbra, o mesmo curso que proporcionou os alicerces da minha formação profissional e pessoal ao longo dos cinco anos em que estive em Coimbra.

A Secção de Jornalismo da AAC


Para não deixar de praticar o Fotojornalismo, procurei a Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra (SJAAC) no meu primeiro ano de faculdade. Para mim o espaço ideal para quem quer praticar o que aprende durante o curso.
Foi na SJ onde conheci o jornalismo universitário e os amigos que ficaram, assim como as experiências que vivemos à frente de um jornal com poucos recursos, mas com muitas ambições individuais "positivas". Através da SJ conheci o Centro de Formação Protocolar em Jornalismo (Cenjor)[1], de Lisboa. No Cenjor, além de outros cursos, realizei uma formação profissional em Fotojornalismo com o formador Pedro Magalhães. O resultado deste curso foi um conhecimento mais prático sobre a fotografia digital e o início do pensar a fotografia jornalisticamente.
Através da SJ tive a oportunidade de realizar projectos de fotodocumentários[2] para a Pró-reitoria para a Cultura da UC em Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde[3].
Experiências extracurriculares que me ensinaram, na prática, que a fotografia do “outro” sempre está relacionada com o “Eu”, o que nas palavras de Boris Kossoy define-se como [...] um duplo testemunho, por aquilo que ela nos mostra da cena passada, irreversível, ali congelada fragmentariamente, e por aquilo que nos informa acerca do seu autor [...] um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo que é uma criação a partir de um visível fotográfico. Toda fotografia representa um testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representará a sempre a criação de um testemunho (Kossoy apud Andrade 2002)

[1] http//www.cenjor.pt
[2] SOUSA, Jorge Pedro, (1998) - Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. “O documentalismo social, enquanto forma mais comum de fotodocumentalismo, procura abordar [...] o significado que qualquer acontecimento possa ter para a vida humana ou ainda as situações que se desenvolvem à superfície da Terra e afectam a mundivivência do Homem”
[3] http//www.acaminhodalusofonia.org

A ética no (Foto)jornalismo

Fotografar usando os recursos actuais digitais tornou a fotografia fácil e ao alcance de todos. “Em 1991 a Kodak lançava a primeira máquina digital com resolução de 1.3 mega pixel [...] o seu custa era de aproximadamente 30 mil USD. Só dois anos mais tarde a Apple lança um modelo mais acessível ao público, o Quicktake 100 (700 USD).
Era o começo da popularização da fotografia digital[1]. No Fotojornalismo, a fotografia Digital trouxe rapidez, eficácia e muitas questões éticas. O tradicional laboratório, com seus químicos e demorados processos na “sala escura”, foi substituído nas grandes redacções por velozes computadores e “laboratórios portáteis” como por exemplo o programa Photoshop, da empresa Adobe[2]. Com o pós-tratamento da imagem através deste software e de outros da mesma linha, é possível fazer o que se fazia nos tradicionais laboratórios de fotografia[3]. Os problemas surgem quando estes mesmos programas são utilizados para manipular uma imagem a ponto de retirar ou acrescentar elementos, alterando a informação da mesma.
Questões éticas no fotojornalismo são quase diárias, mas não se finalizam apenas uso imoral uso das novas tecnologias. Um caso observado na licenciatura de jornalismo mostrou-me que a informação de uma imagem, seja ela digital ou analógica, pode ser manipulada antes da imagem chegar a redacção.
Foi através de um trabalho que realizei para uma cadeira que não era de Fotojornalismo, mas sim Ética y Deontologia, frequentada num período de estudos Erasmus na Universidade Pontifica de Salamanca. O caso dizia respeito à polémica imagem do fotojornalista espanhol Javier Bauluz do jornal catalão “La Vanguardia” que mostrava a imagem do corpo de um imigrante numa praia da Costa do Sol espanhola ao lado de um casal de turistas que pareciam (na imagem) estar indiferentes à imigração subsaariana naquele país. Numa segunda imagem é possível constatar que não havia indiferença naquela praia, pois a segunda imagem é registada numa posição que propicia uma ideia de isolamento dos actores. Além disso, a lente teleobjectiva utilizada no registo da imagem permite aproximar os sujeitos, que a “olho nú” estariam mais afastados[4].
Este é um exemplo que demonstra que a informação fotográfica não está a salvo de manipulação, tenha esta passado por processos de pós-tratamento digital ou não.
Porém, falar de ética e moral no (foto)jornalismo, quando o campo de aprendizagem dos futuros profissionais da comunicação social ultrapassa fronteiras, torna-se uma tarefa complicada.
No Brasil descobri que a profissão de assessor de imprensa pode ser dividida com a profissão de jornalista e que as imagens às vezes são “ligeiramente” manipuladas para “esconder” certa informação indesejável em certas revistas. E que em Macau é (culturalmente) comum a oferta de “presentes” aos jornalistas em certas datas do calendário chinês por parte das instituições do Governo e que é “normal” ver fotografias e artigos não assinados na maioria dos jornais da RAEM. Como analisar estas situação do ponto de vista do (Foto)jornalismo realizado em Portugal e do Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses[5]? Fácil. Mas será que podemos criticar os outros ao ponto de não nos tornamos demasiados “centristas” numa discussão sobre um o que é melhor para o jornalismo mundial?

A conclusão que tiro dos meus estágios “além-mar” é que cada país tem a sua deontologia e a sua necessidade/forma de exercer o (Foto)jornalismo. O que não justifica que um (Foto)jornalista não tenha interiorizado as definições éticas existentes[6] da profissional que escolheu.

Levantar questões sobre a profissão, até mesmo na recta final de uma licenciatura, não seria fácil sem um curso que formasse o aluno antes do profissional. Penso que está aí a importância do curso de jornalismo de Coimbra: não formar apenas “estrelas da televisão” ou “pseudo-políticos de canetas no punho”, mas sim eternos e infatigáveis questionadores da profissão.

[1] MUNHOZ, Paulo (2007) - Estágios de Desenvolvimento do Fotojornalismo na Internet.
[2] “Adobe Photoshop é um software caracterizado como editor de imagens desenvolvido pela Adobe Systems é considerado o líder no mercado dos editores de imagem profissionais, assim como o programa de facto para edição profissional de imagens digitais e trabalhos de pré-impressão”
[3] SOUSA, Jorge Pedro, (2004) - A tolerância dos fotojornalistas portugueses à alteração digital de fotografias jornalísticas”. “Existem muitos fotojornalistas que não perspectivaram certas operações digitais como forma de tratamento digital de imagens, já que estes procedimentos seriam semelhantes às técnicas usadas nos laboratórios tradicionais”.
[4] Anexo 01 e 02
[5]Anexo 03
[6] Anexo 04

Segunda parte

Estágios da vida ponto blogspot ponto com

Concluídas as cadeiras do curso em Coimbra iniciou-se a segunda e última parte do processo de licenciatura: o estágio. Ainda sem a certeza para que órgão estagiar, procurei o Departamento de Relações Internacionais da UC para averiguar a possibilidade de realizar um estágio no exterior, num jornal cujos corredores eu já conhecia bem, o Jornal A Tribuna de Santos.

Com o auxílio da prof. Benalva Silva, da Unisantos[1], consegui um estágio no periódico santista. Antes de formalizado o estágio em Santos, o IEJ confirmou-me uma vaga para o estágio em Macau para Setembro. Para isso a duração do meu estágio em Santos teria que ser reduzida de três para um mês. Justifiquei esta decisão com uma verdade: uma oportunidade para trabalhar no oriente não surge todos os dias. O jornal A Tribuna de Santos confirmara o pedido de estágio semanas depois. Não quis perder nenhuma das oportunidades.
Fui para Santos e realizei no de Agosto o estágio no A Tribuna que incluía, por escolha minha e por orientação da prof. Benalva, aulas matutinas na Unisantos, de elaboração de reportagens com a própria prof. Benalva e de Fotojornalismo, como prof. João Baptista.

O estágio no diário brasileiro iniciava-se no começo da tarde e, por escolha minha, e muitas vezes contra a vontade dos meus editores, não tinha hora para acabar.

[1] Universidade Católica de Santos

O Jornal A Tribuna de Santos

Lo corriente en los viajes consiste en ajustar la imaginacion a la realiad y,
en vez de hacer pensar cómo son las cosas, hacerlas ver como son,
Samuel Johnson

A história do jornal A Tribuna de Santos inicia-se em 26 de Março de 1894[1]. Nesta altura o jornal chamava-se A Tribuna do Povo e circulava duas vezes por semana. Em 1909 o jornal muda de mãos e ambições. O periódico caiçara moderniza-se e ganha uma nova sede. No ano de 1927 o jornal contava com modernas máquinas de impressão da época e era capaz de produzir quarenta páginas diárias. Neste período a chefia do jornal passa para as mãos de Giusfredo Santini, e este encarrega-se de levar o nome do jornal para toda a região e manter o crescimento da empresa que veio a tornar-se o Sistema Tribuna de Comunicação (SAT).

Actualmente o jornal A Tribuna mantém sucursais e correspondentes por toda a Região Metropolitana da Baixada Santista e tem uma tiragem de 45 mil exemplares diários. O jornal edita semanalmente cadernos especiais para públicos de interesses diferenciados, como Jornal Motor, Turismo, Bom Programa, Digital, Ciência & Meio Ambiente, além da revista AT Revista. Além do jornal centenário, o SAC inclui a TV Tribuna (afiliada à Rede Globo), rádio Tribuna FM, jornais Primeiramão Santos e Campinas, o portal A Tribuna Digital e o jornal Expresso Popular, de formato tablóide, fundado em 2001.

As rotinas

Realizada a reunião de editores para a elaboração da agenda de cada dia, os assuntos seleccionados são encaminhados pelos editores de cada área e organizados logo cedo pelo “pauteiro” que reúne o material e define o roteiro. Esse roteiro estabelece a agenda de acontecimentos do dia e os temas a serem abordados.
A partir da distribuição de pautas pelo chefe de redacção, a equipa começa a recolher informações, conforme a orientação e enfoque passados pela chefia. Na fase de edição, o texto pronto é encaminhado ao editor da respectiva área, onde começa uma nova etapa do processo. Após a leitura e discussão do material do dia, o editor responsável reúne-se com o editor de para escolherem as imagens feitas para a pauta.
Na fase de paginação, inicia-se a fase de edição gráfica, acomodando em blocos o material produzido em cada sector do jornal. O departamento de fotografia (DF), composto por dez fotorepórteres e dois editores, situa-se no primeiro andar do edifício do grupo e divide o primeiro andar com o departamento de paginação. É no DF que o trabalho é distribuído, entregue e discutido com os editores. É ali também que, no curto espaço de tempo que resta entre um trabalho e outro, é feita a convivência e a troca de conhecimento entre os fotorepórteres.
Logo que se chega ao DF, o fotorepórter pousa a sua bolsa e põe a conversa em dia, antes de ler as tarefas para si designadas na agenda do DF ou receber as instruções directamente de um dos editores responsáveis: Silvio Luís, o editor, e Luigi Bongiovanni, o sub-editor. Para os estagiários não é diferente.
Foi nesta fase mais descontraída do trabalho que aproveitei para conhecer cada um dos meus colegas de trabalho e para perguntar o funcionamento do DF. Todos, sem excepção, foram atenciosos e bons camaradas de profissão (apesar de no meu primeiro dia de estágio ter sido recepcionado ao som do hino do Corintians Futebol Clube), sinceros críticos até na hora de provar o meu café, pois saber fazer um bom café é um dos principais requisitos para ser repórter fotográfico naquele DF. Um relacionamento que contribuiu e muito a minha inserção no grupo rapidamente e a minha compreensão sobre o funcionamento do DF.

Depois de voltar da rua com o material, o fotorepórter descarrega as suas imagens no programa FotoStation de gerenciamento de imagens. As imagens então são, depois de devidamente identificadas, gravadas na pasta correspondente. Cada pasta representa uma editoria ou secção de cada um dos órgãos de comunicação do grupo, dado o facto que os fotorepórteres do DF trabalham para todos os veículos do SAT[2], não apenas para o jornal A Tribuna.

[1] http//www.atribuna.com.br/historia
[2] Anexo 05 a,b & c

O Jornal Tribuna de Macau

“Quando um jornalista perde a dignidade, ele não tem mais nada”
João Figueira

O Jornal Tribuna de Macau (JTM) é o fruto da união de dois tradicionais jornais da Macau: o diário Jornal de Macau e o semanário Tribuna de Macau. O JTM possui uma tiragem de 1000 exemplares diários e faz parte do grupo de jornais de língua portuguesa existentes na RAEM, ao lado dos jornais Hoje Macau, Ponto Final e o Tai Chung Pou.
A redacção do JTM era composta na altura pelo seu director, José Rocha Dinis, um director-adjunto que desempenha a função de editor, um jornalista profissional, um paginador, uma estagiária da agência Xinhua e os estagiários do IEJ. O JTM ainda conta com conteúdo do provenientes de jornais portugueses e da agência Lusa, devido a protocolos estabelecidos.
O trabalho é distribuído pelo director-adjunto no dia anterior e o material é entregue ao mesmo no regresso à redacção, cabendo ao director-adjunto a responsabilidade do gatekeeper[1].

As rotinas

As experiências que vivi ao estagiar no JTM podem dividir-se em duas vertentes: pessoal, no que toca a aprender a viver na RAEM e a segunda que é a profissional, no que toca à comparação da deontologia de jornalismo entre Portugal e Macau. O início do estágio em Macau aconteceu de uma forma “abrupta”, assim como foi para todos os colegas estagiários que por ali passaram.
A carga horária média era de doze horas de trabalho por dia/seis dias por semana. Sem dúvida, um bom método para preparar um estagiário para a profissão, mas colocava a eficácia daquele método em causa quando era destacado para desempenhar outras funções.

[1] WOLF, Mauro, (2003) – Teorias da Notícia. “No controlo do processo informativo, as escolhas do gatekeeper são influenciadas pelo contexto profissional-organizativo-burocrático”.

O Jornal Macau Daily Times

“Um jornal não tem que se adaptar ao jornalista,
o jornalista é que deve adaptar-se ao jornal”.
José Rocha Dinis

A história do jornal Macau Daily Times (MDT) nasceu das ambições de dois profissionais da área da comunicação social da RAEM: o angolano Rodolfo Ascenso e o macaense João Magalhães, editor e designer gráfico, respectivamente, no jornal Ponto Final. Após alguns anos a desempenhar as suas funções e um tanto ou quanto insatisfeitos com o funcionamento daquele periódico de língua portuguesa, os dois amigos resolveram no ano de 2006 que estava na hora de mudar de ares e procurar novas alternativas para o jornalismo feito no território.
Rodolfo Ascenso, com um currículo jornalístico construído entre Portugal e Macau, foi o mentor e o principal articulador das parcerias necessárias para o financiamento do projecto. Nesta fase de negociações entra em cena o sul-africano Kowie Geldenhuys, que, graças às suas relações em Macau, foi a peça chave entre o projecto e os empresários da RAEM. Kowie tornou-se o general manager, enquanto que Rodolfo ficou com o cargo de director do jornal, e João Magalhães assumiu a direcção gráfica, responsabilizando-se por todo o design do MDT, desde a criação do logotipo à concepção gráfica do jornal.
Além do conteúdo proveniente da Agência France Press (AFP) para os temas internacionais, a recolha de informações locais é realizada por uma equipa de quatro jornalistas profissionais e uma estagiária. Os jornalistas do MDT foram escolhidos “a dedo” pelo seu director, que contactou pessoalmente universidades australianas para recrutar alunos finalistas em jornalismo, interessados na experiência multicultural que é trabalhar em Macau. A excepção é a jornalista luso-inglesa Sara Farr, que já trabalhava noutro jornal de língua inglesa de Macau[1], mas que preferiu trocar de emprego por acreditar na proposta do novo jornal. O resultado das escolhas do director Rodolfo Ascenso reflecte-se no espírito que o angolano idealizou para o novo projecto: uma redacção jovem, multicultural, crítica e opinativa, que tem liberdade para errar e corrigir os seus trabalhos, sem perder de vista a linha editorial do jornal.
Nasce assim o segundo jornal de língua inglesa de Macau no mês de Junho de 2007, o Macau Daily Times que, como salienta João Magalhães, “em apenas seis meses, conseguiu tornar-se o principal jornal daquela língua no território, definir o seu espaço dentro do mercado publicitário e obter o apreço da comunidade anglófona de Macau”[2].

As rotinas

Fruto de um acordo celebrado com o director Rodolfo Ascenso, o meu estágio como repórter fotográfico no MDT inicia-se no mês de Novembro de 2007. Para sanar as eventuais dificuldades financeiras da minha estada em Macau, que naquela altura já não estava a ser financiada por nenhum protocolo, a direcção do jornal ofereceu-me a oportunidade de realizar trabalhos part time na área da paginação.
O estágio foi duplamente benéfico, pois, além de absorver mais conhecimentos através das orientações fotojornalísticas dadas pelo director do jornal, aprendi na prática como pensar “graficamente” uma fotografia e solidifiquei a minha opinião sobre a importância da imagem numa publicação impressa.
As reportagens fotográficas eram requisitadas a qualquer hora do dia por telefone ou pessoalmente, na redacção. Os trabalhos eram entregues pela editora Kimberly Johanes depois de ter definido os temas da agenda com o director na noite anterior. Na maioria dos trabalhos eu acompanhava os jornalistas desde a sede da redacção, mas, em muitos casos, deslocava-me de onde estava para sítios onde o trabalho ia ser realizado.

Ao chegar à redacção, descarregava as imagens no computador de fotografia para serem seleccionadas, editadas e identificadas adequadamente sob a orientação de Rodolfo Ascenso, que além de ser o director despenhava também a função de editor fotográfico do jornal. As imagens seleccionadas eram então gravadas no servidor de imagens do jornal e ficavam à disposição da editora e do director.

Depois de submetidas à escolha editorial, as imagens eram então gravadas, com os textos correspondentes já editados, em pastas que correspondiam a cada uma das secções do jornal, armazenadas no computador do paginador, através de uma rede interna. O paginador, depois de se ter reunido com o director de Marketing (responsável pela quantidade e a localização das publicidade em cada edição), acedia às pastas no seu computador e disponibilizava o material na maqueta do jornal. Terminado o processo de paginação, o jornal era revisto, corrigido e depois gravado num CD, que era entregue aos funcionários da gráfica que se deslocavam à sede do MDT depois de chamados por telefone para o efeito. Aos fins-de-semana eu realizava a função de paginador e as fotografias passavam a ser tiradas pelos próprios jornalistas durante os seus trabalhos.

A minha inserção no grupo foi rápida, pois todos os jornalistas que ali trabalhavam já eram velhos conhecidos de conferências de imprensa e de vida nocturna. Coisas de Macau. Porém, tinha chegado num período de significativas mudanças no funcionamento do jornal: Kimberly Johanes assumira a editoria do diário há poucos dias e os restantes jornalistas estavam ainda um pouco atrapalhados com as mudanças de horários e de responsabilidades. No que toca à tarefa de repórter fotográfico, o trabalho fluía naturalmente. Mas quando comecei a realizar os trabalhos de paginação aos fins-de-semana, houve quem perdesse a cabeça comigo. E com razão: o director gráfico conseguia terminar a paginação antes da uma da madrugada. Eu, no meu primeiro dia, terminei às cinco horas.
O director do jornal conseguiu acalmar a situação também com o uso da razão, afinal, eu estava apenas a começar e, para um novato paginar um jornal inteiro sem erros, era necessário tempo e compreensão de todos. Assim mesmo o director não deixou de me chamar a atenção: disse para eu deixar de “namorar” as fotografias e ter mais cuidado com o tempo que despendia. E era verdade: gostava de ver as fotografias da AFP e ler os textos que as acompanhavam.

O enquadramento

O processo de paginação é uma dinâmica: os textos e as imagens tornam-se “manchas gráficas” que se acertam na maqueta do jornal através das mãos do paginador como num puzzle com regras A disponibilização das notícias tem de proporcionar um prazer semelhante ao da leitura de um conto, mas a satisfação do leitor tem de ser mais rápida. O design da imprensa tem de ir ao encontro dessas variáveis. Tem de ser acessível e convidativo.[3]
Não havia tempo para “namoros jornalísticos” mais profundos, mas isso não me impediu de ter cuidado no enquadramento das fotografias e fazer algumas observações quanto às imagens captadas pelos colegas jornalistas. Impossível resistir à observação, afinal, as mãos que paginavam também pertenciam a um futuro Fotojornalista. O mais enriquecedor nesta experiência como paginador foi exactamente no que toca ao reenquadramento das imagens[4].
Como certas páginas “pediam” fotografias verticais e outras horizontais, tanto para facilitar a leitura como para disponibilizar o conteúdo de uma forma mais harmoniosa para o leitor, interiorizei a necessidade que um jornal tem de obter, através dos seus fotorepórteres, imagens nas duas posições sobre o mesmo tema.
No que toca à qualidade das fotografias dos colegas, preferi não me limitar apenas aos comentários e às sugestões. Como não eram da área do fotojornalismo, procurava resolver com eles os problemas de focagem e de enquadramento, testando e ajustando as suas máquinas e trocando ideias sobre ângulos e iluminação com os jornalistas. O que além de produtivo foi um prazer, pois além de melhorar as imagens para o jornal, sempre aprendia algo mais enquanto explicava.

[1] O jornal Macau Post
[2] Este material foi colectado através de entrevista e conversas realizadas com João Magalhães e Rodolfo Ascenso no âmbito da recolha de informações sobre o MDT para este relatório de estágios
[3] SOUSA, Pedro Jorge (2001) – Elementos do Jornalismo Impresso
[4] Anexo 12

A agência Lusa

“Não esquece de uma coisa, para o resto da tua vida como profissional:
Todas as fotografias que tirar são para a capa!”
Luigi Bongiovanni

A Agência Lusa nasceu no ano de 1987, fruto da fusão de duas agências portuguesas: agência Notícias de Portugal (NP) e outra agência que os membros da NP viriam a criar em cooperação com o Estado português: a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP). A Lusa possui delegações em todos os concelhos de Portugal, nos PALOP, na Europa, na China e em Timor Leste. A agência portuguesa conta ainda protocolos com a European Photo Agency (EPA), o que a possibilita contar com imagens de profissionais espalhados por quase todo o globo, além de possuir fotorepórteres em Lisboa, no Porto, em Faro, em Coimbra, no Funchal, em Ponta Delgada e Macau[1].

A agência Lusa não possui um fotorepórter próprio em Timor Leste, contando apenas com a colaboração de um fotojornalista da agência EPA. Estando em Macau, não era distante pensar em Timor e aproveitar para chamar a atenção de Lisboa. Independentemente da data em que terminasse o meu estágio em Macau, seria Timor Leste a próxima paragem. Numa dessas situações da vida que algumas pessoas preferem chamar de “coincidências”, encontrei-me em Macau com o director adjunto da Lusa, e expliquei-lhe as minhas intenções. Neste encontro consegui o primeiro (e único) contacto em Díli, e no mesmo dia avisei a direcção MDT que no término do estágio rumaria para Timor Leste. E assim foi. Em Fevereiro de 2007 já me encontrava na capital timorense e as tais “coincidências” voltaram a acontecer. Três dias depois da minha chegada a Díli, o presidente José Ramos Horta é alvejado depois de uma tentativa de sequestro liderada ex-integrantes das Forças de Defesa de Timor Leste (F-FDTL), entre eles o ex-major das Alfredo Reinado, morto durante a diligência .

As rotinas

Os dias que se seguiram foram de intensivos trabalhos fotográficos para agência portuguesa num regime freelancer. O meu contacto em Díli, Pedro Rosa Mendes, jornalista e delegado da Lusa em Timor Leste, orquestrava os trabalhos na sede da delegação. Paulo Carriço, editor de fotografia da agência, dava as coordenadas adicionais por telefone a partir de Lisboa. Para mim, como futuro profissional, era a hora da verdade. Conferências de Imprensa[2], entrevistas[3], o funeral do ex-major[4], peticionários a renderem-se em massa[5] e alojados em sítios vigiados pelo exército[6]. Tudo isto, até a uma certa altura, sob a iminência de uma guerra civil.
As baterias do telemóvel e da máquina fotográfica eram recarregadas todas as noites enquanto o corpo descansava. Os cartões de memória suplentes andavam sempre nos bolsos, os nomes de personalidades e de sítios preenchiam a agenda de contactos. Não havia tempo para falhas.
[1] SOUSA, Jorge Pedro (1997) – Fotojornalismo Performativo – O serviço de fotonotícias da agência Lusa de informação.

[2] Anexo 15
[3] Anexo 16
[4] Anexo 17
[5] Anexo 18
[6] Anexo 19